Marcel Schwob




Vísceras e Cores


Marcel Schwob nasceu em Chaville, França, em 23 de agosto de 1867. Erudito de berço, pois seus pais eram pessoas de alta cultura, foi aluno brilhante; depois jornalista, filólogo, poliglota, tradutor de literatura inglesa e um excelente contista.
Antes de chegar a Paris, por volta de 1881, Marcel já conhecia aqueles que o marcariam: E.T.A. Hoffmann, Allan Poe, T. Gautier, entre outros mestres da literatura fantástica. Mesclado a essas “raízes” estão seus conhecimentos de história antiga, grega, romana, medieval, assim como também seus estudos das culturas marginais e de outros autores, como Robert Louis Stevenson, pelo qual teve verdadeira paixão.
Foi contemporâneo e amigo de artistas como Paul Claudel, Gide, Valery, Daudet, Lorrain, Jarry, entre outros. De seus estudos sobre gíria saiu seu primeiro livro: Étude sur l’argot français (1889). Nos anos seguintes publicou Coeur double (1891) e Le roi au masque d’or (1892) — de onde foram traduzidos os contos desta seleção —; Mimes (1893); Le livre de Monelle (1894); Annabella et Giovanni (1894) entre outros que lhe renderam admiradores fervorosos, principalmente entre os simbolistas.
Casou-se com a atriz Marguerite Moreno em 1900; cinco anos depois, por conta de sua saúde frágil, uma gripe o leva à morte, deixando muitos textos incompletos e inéditos, alguns dos quais só a partir da década de 1980 é que começaram a ser publicados.
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Marcel Schwob é todo vísceras e cores. Sua escrita fantástica é carregada de sangue, perfumes e alimentos, mesclados com aspectos sinistros e maldosos do ser humano, apresentados de uma maneira que poderíamos chamar de mágica. Nele a arte da escrita alcança as esferas mais altas da prosa francesa. Entre os simbolistas seu nome é quase um segredo, pois sua perfeição enquanto contista parece tocar de perto a poesia mais imagética e decadente de Maurice Rollinat ou as mais belas páginas de Villiers de L’Isle-Adam.
Nesta seleção o leitor encontrará doze contos que provam porque Schwob é um autor de raros leitores. Sua prosa se aproxima, em certa medida, daqueles franceses mau vistos devido ao seu exagerado gosto pelo extraordinário, pelo sonho e pelos narcóticos.
Pelo título dado a esta seleta de contos — é quase inútil dizer — selecionei aqueles de aspecto fantástico, porém nem todos o são. E este aspecto nele é bastante singular, como o leitor poderá perceber. Trata-se de um fantástico, por um lado, invocador do passado, por outro, bastante interior. Schwob também é uma singularidade pela amplitude temporal de suas histórias, como observou Anatole France, sem exageros: “Há contos descritivos de todos os tempos, desde a época da pedra polida até nossos dias”*. Aqui, no entanto, o mais antigo é “As estriges”, ou “O incêndio terrestre”, se pensarmos que a história se passa em Sodoma e nas demais cidades queimadas pelo vingativo Jeová.
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Schwob não é um autor dos mais difíceis de traduzir, no entanto, pela riqueza de vocabulário foi-me forçoso recorrer a algumas poucas notas de rodapé — pelo que o leitor haverá de me perdoar. Os textos aqui presentes foram traduzidos das seguintes edições: Coeur double, [deuxième édition] Paris: Paul Ollendorff, Éditeur, 1891; e: Le roi au masque d’or, Paris: Les Éditions G. Crès et Cie., 1920. Pude confrontar minha tradução com as seguintes: El rey de la mascara de oro, tradução de Sol Noguera, Barcelona: Editorial Bruguera, 1980; e Corazón doble, tradução de Amanda Fons de Gioia, Buenos Aires: Centro Editor de América Latina, 1980.
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Considerando que todos os contos (com exceção de “A cidade adormecida”) são inéditos no Brasil, e que cada história de Schwob é uma singular passagem pelo desconhecido, resta desejar ao leitor uma boa viagem!

Camilo Prado




* in La vie littéraire. [Troisiéme série]. Paris: Calmann-Lévy Éditeurs, 1892, pp. 323-324.
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Este prefácio é do volume 15 da Coleção Nimbus : A cidade adormecida e outros contos fantásticos.


Se desejar adquirir o livro: lançamento em 15 de outubro/2011.

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