Ambrose Bierce



Ambrose bierce


            Ambrose Gwinnett Bierce nasceu em 1842, em Meigs Country, Ohio, Estados Unidos. Dois anos depois sua família se muda para o estado de Indiana. Tinha outros oito irmãos e viveu uma infância e adolescência miserável sob todos os aspectos, que a maioria dos seus críticos toma como a origem de seu pessimismo extremo. Parece ter conservado desde a infância um ódio profundo pela sua família. Ainda muito jovem, em 1861, alista-se no nono regimento de infantaria de Indiana e no ano seguinte é enviado a Nashville e tem sua primeira participação nas batalhas da Guerra de Secessão, em Shiloh e Stones River. Em 1863, já primeiro tenente, participa de diversas batalhas que depois lhe inspirariam os contos reunidos em Tales of soldiers and civilians (1891) – onde se encontra “Um cavaleiro no céu”.
            Com o término da guerra trabalha um tempo na Casa da Moeda de Alabama, viaja ao Panamá, participa de expedições militares e por fim, em 1867, começa a publicar poemas, ensaios e artigos jornalísticos e, em seguida, contos. Casa-se em 1871 com Mary Ellen Day, a “Mollie”, e no ano seguinte vai para Londres, onde publica em jornais e revistas e se torna correspondente de jornais americanos; faz viagens à Paris e mora em diversas cidades inglesas. Pela acidez de seus textos, na Inglaterra lhe dão o apelido de “Bitter Bierce” (amargo Bierce).
            Volta para os Estados Unidos em 1875 com dois filhos, e em outubro nasce o terceiro: Helen. Segue publicando e trabalha na Casa da Moeda em São Francisco, depois como redator, administrador de uma companhia; volta a ser redator em 1881, agora na Califórnia, e a partir de então seguirá neste ramo em diversas revistas e jornais americanos e depois passa a viver de seus escritos.
            Em 1888 separa-se de Mollie, com a qual não vivia nada bem; em 1889 seu primeiro filho, Day, morreu num duelo; em 1901 seu segundo filho, Leigh, morre por excesso de álcool... Todos esses incidentes, acumulados com a infância miserável e os quatro anos da guerra de Secessão, deram ao “amargo” Bierce uma visão muito mórbida do ser humano, e que irá transparecer em grande parte de sua obra.
            Em novembro de 1913, doente, pois por toda a vida sofreu de asma, decide ir para o México incorporar-se ao grupo de Pancho Villa. Em sua última carta, datada de dezembro do mesmo ano, diz que segue para a cidade de Ojinaga, onde, em janeiro do ano seguinte, ocorre uma sangrenta batalha na qual se supõe que tenha morrido. Não se tem certeza, seu corpo nunca foi encontrado. De modo que a data de sua morte é incerta, 1913 ou 1914? – Este fato inspirou alguns autores, entre eles, Carlos Fuentes em seu Gringo viejo.
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Dentre suas obras, além de poemas e cerca de sessenta contos curtos e inúmeros artigos, destacam-se também Fantastic fables (1899), uma re-escritura “imoral” de Esopo e La Fontaine, e The Devil’s dictionary (1911)*, cujos verbetes tornaram-se muito comuns nos Estados Unidos e Inglaterra, e nos quais se encontram definições inesquecíveis.
            Bierce, na maior parte de seus contos de horror, segue os passos do gato negro de Allan Poe (1809-1849) e certa ambientação familiar semelhante à de Nathaniel Hawthorne (1804-1864), aquela do americano médio – com a grande diferença de estar muito longe do puritanismo deste último. Em seus contos – de horror, suspense ou simplesmente estranhos – o lado mais negro e mórbido do ser humano caminha ao lado do risível e da estupidez. O que leva sua obra a ser por vezes classificada de “humor-negro”, de “sardônica”, ou mesmo de “satírica”. A definição de “Homem”, do seu Dicionário do Diabo, pode lançar uma luz aos leitores que iniciam aqui o conhecimento de Bierce:

      “Homem – Animal tão enlevado na contemplação do que pensa que é, a ponto de não perceber o que indubitavelmente devia ser. Sua principal ocupação é o extermínio de outros animais e da própria espécie, a qual, todavia, se multiplica com tal rapidez que infesta hoje toda a terra habitável e o Canadá.” **

Os clássicos elementos do fantástico nele se misturam a um realismo exacerbado e cruel. Suas formas narrativas são múltiplas, as perspectivas às vezes são paralelas, como no primeiro conto aqui selecionado, ou são tripla, como em A estrada ao luar. Muitas vezes o leitor é surpreendido no fim ou mesmo a meio caminho da história, e só ali é que perceberá a maestria de sua forma.
Antes de ler as cinco histórias aqui selecionadas, e que são todas de teor fantástico, deixo ao leitor mais um traço disso que pode ser a concepção de Bierce da vida humana e de suas “verdades”. São ainda dois verbetes do Dicionário do Diabo que evidenciam, talvez, o motivo de não ser ele um escritor realista:
Realidade: – o núcleo de um vácuo.
Realismo: – a arte de retratar a natureza como é vista pelos sapos.” ***

Camilo Prado.

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Este prefácio é do volume 16 da Coleção Nimbus : Um cavaleiro no céu - a tradução é de Renato Suttana.


 
Se desejar adquirir o livro: lançamento em 15/outubro/2011.


* a primeira publicação, na verdade, foi em 1906 no volume The Cynic's Wordbook.
** Dicionário do Diabo, in A. Bierce, Fábulas fantásticas. Tradução: Jorge Arnaldo Fortes. Rio de Janeiro: Arte Nova, 1973. p.108.
*** Idem, p.132.

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