Marcello Gama



Marcello Gama:
uma poesia em movimento


Illuminado ou verme,
que se dirá de mim quando eu putrefizer-me?


Marcello Gama, cujo nome de registro era Possidônio Cezimbra Machado, nasceu no dia 3 de março de 1878, em Mostardas, no Rio Grande do Sul. Com 17 anos foi para Cachoeira do Sul e mais tarde para Porto Alegre, onde publicou os livros: Via sacra (1902, poesia), Avatar (1905, teatro), Noite de insomnia (1907, poema), além de poesias e textos diversos, dispersos em jornais e revistas[1]. No Correio do Povo, jornal de Porto Alegre, publicou crônicas e crítica literária. Fundou a revista Artes e letras (1898) e A lua (1900), esta última em Cachoeira do Sul. Com Zeferino Brasil criou também a revista teatral A peste bubônica.

Era seu companheiro de boemia, além de Zeferino Brasil e outros escritores riograndenses, Felipe D’Oliveira, com quem mais tarde seguiria trabalhando no Rio de Janeiro, onde ambos foram viver.

É interessante a amizade entre eles, pois se encontram em Gama certos aspectos proto-surrealistas e Felippe D’Oliveira será quem, no Brasil, publicará o primeiro livro de poesia surrealista: Lanterna verde, em 1926. Mas é em seu primeiro livro, Vida extincta, de 1911, bem como em versos de Alguns poemas, livro póstumo de 1937, que se notam parentescos estéticos com Marcello Gama, aliás, bastante natural, considerando o comum convívio no meio ambiente simbolista da Porto Alegre do início do século passado.

Pouco há sobre Gama na historiografia crítica brasileira. E quando sobre ele se diz alguma coisa, costuma-se ligar seu nome ao de Cesário Verde, talvez por conta de Andrade Muricy, que o incluiu no Panorama do movimento simbolista brasileiro dando-lhe um lugar no limbo de nossa literatura e fazendo menção à poesia do cotidiano de Cesário Verde e Mário Pederneiras, o que os posteriores repetem até hoje (esquecendo-se, no entanto, de Pederneiras). Afirmações, por exemplo, como a de Massaud Moisés, de que “Marcello Gama filiou-se, mais do que outros simbolistas, à poesia do cotidiano de Cesário Verde”[2], parece-me ter mais motivos lusófonos do que consistência. Gama não era “filiado” a nada, como também é duvidosa a “filiação” desses “outros simbolistas”.

Por outro lado, “legítimo precursor do Modernismo” é um tipo de afirmação de quem procura aproximar forçadamente (sempre!) poetas do início do século XX ao “movimento revolucionário de 1922” (sic), como faz Moisés[3]. Uma vez que tal movimento foi muito mais retrógrado e conservador (e vale lembrar: discípulo do fascista Marinetti) do que “moderno”; fazendo-se necessário então, hoje mais do que ontem, encontrar “origens brasileiras” para os caiporas do café.

* * *

Numa carta datada de setembro de 1984, a Mário Cesariny, o poeta português Nicolau Saião diz que sua “estadia junto dos anarquistas ibéricos foi um equívoco provocado pelo facto de eu julgar que as pessoas que se dizem livres têm poesia na cabeça e no corpo, trocando: que são a própria poesia”. E completa: “a Anarquia, para mim, teria de ser a poesia em movimento”[4].

Marcello Gama, que dentre muitos poetas é um decadente por natureza e simbolista, talvez, por opção, criou uma obra, assim como uma vida, movimentada inteiramente pela poesia. Não apenas isso tem alguma transparência em seus versos (“nasci para ser poeta... E que querem que eu faça?”), como também em sua vida: “integralmente poeta, queria viver no sonho e no mundo da poesia”[5], observou Andrade Muricy. Isso que significa, aliado ao espírito acrata de muitos de seus versos, que ele vivia a poesia em movimento, ou seja, a Anarquia segundo a concepção de Nicolau Saião.

“Esse notável poeta, escreveu ainda Muricy, nunca se submeteu às obrigações duma vida regular, à burocracia, nem buscou sinecuras. Foi jornalista e conferencista e, por fim, empregado de escritório comercial. Tinha horror à vida do quotidiano, à vida do profissional”. Nem mesmo fez os tais “estudos regulares”[6], de onde se supõe que era autodidata, ao menos nas profissões que exerceu.

Não deixa de ser curioso então, e contraditório, que um poeta que tinha “horror à vida do quotidiano” seja mencionado como tendo “pendor para os temas do cotidiano”[7].

O aspecto mais evidente de sua poesia, parece-me, é a sua intimidade. Pois ele é um poeta intimista, um lírico intimista. A figura de seus familiares (a mãe falecida, as irmãs, etc.), suas crendices caseiras (o “agoiro”) e a sua lida diária com a poesia, carregada de certezas e dúvidas (“Sono un poeta o sono un imbecille”), são uma constante nos seus versos.

Perceberá o leitor que Marcello não é um poeta de vocábulos raros, como foram muitos de seus contemporâneos aparentados, como ele, ao Simbolismo. Sua poesia, mesmo que colorida pelo humor, muitas vezes sarcástica, ou por vezes indignada com a vida e com os viventes, é sombreada pela constante presença da morte. O que lhe permite um lugar entre os poetas do Decadentismo brasileiro[8]. E o seu principal poema, Noite de insomnia, com aquele “E zás! derramo a tinta!”, seguido de um ato de excessiva crendice popular, leva-nos a pensar em uma exacerbada sinceridade artística, não numa poesia do cotidiano.

Marcello Gama não canta o cotidiano, não poetiza o cotidiano, não tematiza o cotidiano. Ele insere no cotidiano a magna magia da poesia. Seu cenário caseiro e familiar é sempre distorcido por um olhar mágico, supersticioso às vezes, mas nunca faz a descrição desse cotidiano por si mesmo. O cotidiano surge na sua poesia como ambiente, não como tema. Seu tema é ele mesmo[9].

* * *

Creio que não seria trabalho fácil encontrar seus semelhantes no Brasil. Por mais que seu nome permaneça no limbo, sua poesia, que é pouca, move-se e blasfema originalidade. Tem uma inquietação agressiva, sente-se nela o pulsar de uma alma inquieta, um intimismo e um movimento sui generis. Além de que, inúmeras imagens, como a do álamo que “está a convalescer, no hospital da paizagem”, são de matizes tão surreais que não seria de todo exagero considerá-lo um proto-surrealista. (Lembrando que o surrealismo não se reduz à “escrita-automática”).

Suas imagens, plásticas e mentais, lembram às vezes o tom insano e decadente de Francisco Mangabeira e Augusto dos Anjos: “Já então o senhor maestro Pensamento/ começara a reger a opera — Tormento”. Ou ainda, quando entram versos de sinestesias: “Tenho allucinações auditivas: escuto/ um longinquo rumor continuo de engrenagens./ Nas brumas do meu ser vão-se esgueirando imagens/ sensoriais: obcessões de amarguras enormes;/ perturbações mentaes quasi epileptiformes”. É talvez por aí, pelas inovações estéticas, que ele se aproxima de outros poetas, seus contemporâneos brasileiros, não do “cotidiano” de Cesário Verde.

* * *

Por fim, deixo ao leitor o prazer de fruir a poesia de Marcello Gama na grafia antiga, para que este seja completo. Antes, porém, lembro que Avatar, mesmo estando em versos, é uma peça teatral (que não se encontra no português antigo), e que este boêmio (que se pode perceber preocupado com a própria boemia em “Versos de um convalescente”) teve um fim nada poético:

“Marcello Gama faleceu, após uma vida irregular e boêmia, em 7 de março de 1915, no Rio de Janeiro, em conseqüência dum acidente, quando, depois das 4 horas da manhã, viajando de bonde, com destino à sua residência, na Rua Castro Alves no. 123, no Méier, ao passar, adormecido, pelo viaduto do Engenho Novo, foi arremessado à via férrea, de vinte metros de altura, por um movimento brusco do veículo.”[10]

Tinha então 37 anos. Deixou três livros publicados e um longo poema, talvez inacabado segundo Muricy, com o título de O violoncelo do Diabo — que só Deus sabe onde foi parar.

Camilo Prado

Nota : Este prefácio é do livro Noite de Insomnia de Marcello Gama, da Coleção Arquivo Decadente, e você pode adquirir nas Edições Nephelibata.
Com 4 ilustrações e capa de Aline Daka.


__________________
[1] Suas obras completas, publicadas pela Sociedade Felippe D’Oliveira, com o título Via sacra e outros poemas, Rio de Janeiro, 1944, trazem os três livros mencionados mais poemas “Dispersos”.
[2] Massaud Moisés, História da literatura brasileira: simbolismo. São Paulo: Cultrix, 1984, p.97.
[3] Idem, p.100.
[4] Nicolau Saião, Olhares perdidos. São Paulo: Escrituras, 2006, p.147.
[5] Andrade Muricy, Panorama do movimento simbolista brasileiro – vol. 2. [2ª. edição]. Brasília: MEC/INL, 1973, p.714.
[6] Idem.
[7] Massaud Moisés, Opus cit., p.99.
[8] Mesmo Massaud Moisés o aceita como de “respiração decadente e simbolista”. Opus cit., p.98.
[9] Sobre o assunto, conferir o artigo “Marcello Gama: decadente, supersticioso e anárquico”, in Letrônica: Revista Digital do PPGL, Vol. 3, No 1 (2010).
[10] Andrade Muricy, Opus cit., p.714.

Rubén Darío



Algumas notas sobre
o maior poeta das Américas



Félix Rubén Garcia Sarmiento nasceu em Metapa, na Nicarágua, em janeiro de 1867. Mas passou toda a infância em León, na casa dos avós. Mais tarde adotou, de um avô, o sobrenome “Darío”. Aos treze anos de idade publicou seu primeiro poema. Aos quinze ele já colaborava em jornais da capital, Manágua, para onde se mudou. Suas primeiras publicações, no entanto, saem em Santiago do Chile, onde, na época, ele residia: Abrojos (1887), Primeras notas (1888), inicialmente intitulado Epístolas y poemas, e Azul (1888), poesia e contos, que se tornará um de seus livros mais conhecidos e que é um dos marcos do modernismo nas Américas.
Viveu em El Salvador, Chile, Guatemala, Costa Rica, Argentina, entre outros países do continente. Morou também em Paris e Barcelona; viajou por quase toda a Europa. Esteve no Rio de Janeiro em 1906, como representante da delegação nicaragüense, para participar da Terceira Conferência Pan-americana. Trabalhou como redator e correspondente em diversos jornais da Nicarágua, Argentina e Madrid. Conheceu e travou amizade com muitos de seus contemporâneos, entre eles, Horácio Quiroga e Leopoldo Lugones e os espanhóis Juan Ramón Jiménez e Ramón Maria del Valle-Inclán.
Em 1896, em Buenos Aires, publica aquela que será talvez a sua obra mais importante e que consolida a modernidade literária no mundo hispânico: Prosas profanas y otros poemas. Ainda se destaca na sua bibliografia o volume de poemas Cantos de vida y esperanza de 1905, publicado em Madrid, como obra importante da modernidade literária no mundo hispânico.
De passagem por San Salvador, em 1889, Darío se casa com Rafaela Contreras; devido ao golpe militar daquele ano, ocorrido no dia seguinte ao seu casamento, vai para Guatemala, de onde ataca os golpistas com seus textos. Sua esposa faleceu poucos anos depois, em 1893, quando então ele se casa com a nicaragüense Rosario Murillo. Mas logo se separa e, vivendo em Madrid em 1899, junta-se com Francisca Sánchez del Pozo, uma camponesa analfabeta, com a qual terá quatro filhos, dos quais apenas um sobreviveu.
Em janeiro de 1916, já bastante doente — desde jovem que Darío exagerava na ingestão de bebidas alcoólicas — ele retorna a León, a cidade de sua infância, e ali, em fevereiro do mesmo ano, morre e é sepultado na catedral da cidade com enorme honraria. Sua companheira Francisca e seu filho ficam abandonados na Europa, então em plena guerra. Sua cidade natal, Metapa, hoje se chama Darío.
*          *          *
Rubén é muito mais conhecido como poeta do que como contista. Ainda que sua obra poética seja bem pequena em comparação àquela em prosa. Considerando seus contos, novelas textos autobiográficos e ensaios, sua poesia é próxima de um terço das suas obras completas. Mas esta fama de poeta em detrimento daquela de prosador, deve-se a força de sua poesia. Talvez ele seja o único ao qual se pode sem exageros dar o epíteto de o maior poeta das Américas. Ele é o primeiro poeta hispano-americano a ultrapassar o Atlântico e levar o modernismo à Espanha. Todas as crianças hispano-americanas o estudam na escola; todos os poetas hispano-americanos o conhecem. Pois ele não é apenas um poeta nicaragüense, ele é um poeta pan-americano.
Mas um poeta que, se foi ávido leitor de Victor Hugo e Paul Verlaine, também foi de Allan Poe, Adolfo Bécquer e Villiers de L’Isle-Adam. É na proximidade desses que se encontram seus contos fantásticos. Evidentemente com o traço firme de sua originalidade, que se poderia resumir em algumas características: brevidade, um senso muito próprio de humor e determinada cor local, melhor, continental. Esta última característica, por exemplo, encontramos aqui com muita evidência nos contos “D. Q.”, “A larva” e “Huitzilopoxtli”.
A maior parte dos contos de Darío foi publicado em jornais e revistas e somente após sua morte é que se começou a publicar em livros. Porém, o título da presente seleção não é arbitrário, pois já em algumas das várias edições de suas obras completas se encontram alguns desses contos separados dos demais sob o subtítulo “Cuentos fantásticos”. Também há publicações em separado que trazem a expressão no título, é o caso da antologia organizada por José Luis Piquero, Quince cuentos fantásticos*, e da edição organizada por José Olívio Jiménez, que trás sob o título Verónica y otros cuentos fantásticos** nove dos doze contos aqui selecionados.
Dos contos deste volume, apenas “O pássaro azul” foi publicado pelo autor em livro, e justamente em um de seus livros mais conhecidos, o “Azul”. Os demais contos só chegaram aos livros postumamente. E por curiosidade, vale notar que “O conto de Martín Guerre” é uma história verídica; foi publicado pela primeira vez em 1914 em “La Nación” de Buenos Aires, na época um dos maiores jornais do continente.
*          *          *
Que até agora não se tenha editado nada da prosa de Darío no Brasil, não é de se estranhar; no meu caso, como tradutor e editor, é até de se sentir um pouco lisonjeado, pois com o presente volume derruba-se mais um tijolo deste muro que nos separa da literatura do resto do continente americano. Não é muito, eu sei, mas, de tijolo em tijolo, quem sabe se com o tempo o muro não desmorona...

Camilo Prado

Nota: este prefácio é do livro Contos fantásticos de Rubén Darío, volume 14 da Coleção Nimbus, que se encontra em fase de revisão.


* Rubén Darío, Quince cuentos fantásticos. Barcelona: Navona Editorial, 2009.
** Rubén Darío, Verónica y otros cuentos fantásticos. Madrid: Alianza Editorial, 1995. Há também duas edições anteriores, de 1976 e 1982, pelo mesmo organizador e editorial, com o título Cuentos fantásticos.

Gregory Corso


Se estivesse vivo, Gregory Corso (1930-2001) teria feito 81 anos neste último sábado, dia 26. Corso compõe com Allen Ginsberg e Lawrence Ferlinghetti a tríade de poetas centrais do muito incensado, mas insuficientemente compreendido, movimento de renovação poética e literária ocorrido na segunda metade do século XX nos Estados Unidos, fazendo parte do núcleo que viria a ser conhecido por geração Beat. A poesia de Corso é a mais bem-humorada do grupo, com forte influência dos românticos e dos surrealistas, produzindo muitas vezes poemas impagáveis, de fatura primorosa, calcados numa imaginação delirante e sem-limites. Em sua lembrança, postamos aqui texto escrito por Patti Smith logo após sua morte, em janeiro de 2001, e 3 poemas, traduzidos por Márcio Simões e constantes do livro Gregory Corso – Antologia Poética, no prelo das Edições Nephelibata. [MS]

  RELEMBRANDO UM POETA
Patti Smith

Gregory Corso, a flor da Geração Beat, se foi. Colhido para prover a graça do jardim do Papai e todos no céu estão encantados e admirados. Encontrei Gregory a primeira vez na frente do Hotel Chelsea. Suspendeu o casaco e baixou as calças, expelindo expletivos Latinos. Vendo minha cara de espanto, sorriu e disse, “Não estou mostrando a bunda pra você querida, estou mostrando pro mundo”. Me lembro de pensar, sorte do mundo de ser exposto aos glúteos de um poeta de verdade.
E isso ele era. Todos que têm histórias, reais ou embelezadas, das legendárias travessuras de Gregory e de sua caótica indiscrição têm igualmente histórias de sua beleza, remorso e generosidade. Ele me notou de maneira carinhosa no início dos anos 70 porque o espaço em que eu vivia era similar ao dele – pilhas de papéis, livros, sapatos velhos, mijo em xícaras – uma desordem mortal. Fomos parceiros de crimes perturbadores durante leituras de poesia particularmente tediosas em St. Mark. Embora ralhassem conosco com razão, Gregory me aconselhou a espetar com minhas armas irreverentes e a exigir mais desses que se sentam diante de nós se dizendo poetas.
E sem dúvida Gregory era um poeta. A poesia era sua ideologia, e os poetas seus santos. Havia sido chamado e sabia disso. Talvez seu único dilema fosse às vezes perguntar, Por que, Por que ele? Nasceu em Nova York, em 26 de março de 1930. Sua jovem mãe o abandonou. O Garoto foi da casa adotiva ao reformatório e à prisão. Teve pouca educação formal, mas sua educação autodidata era ilimitada. Abraçou os Gregos e os Românticos, e os Beats o abraçaram, colocando folhas de louro em seus negros cachos rebeldes. Kerouac o sagrou cavaleiro como Raphael Urso, foi a alegria e orgulho deles e também sua mais provocativa consciência.
Nos deixou dois legados: um corpo de obra destinado a durar pela sua beleza, disciplina e influente energia, e suas qualidades humanas. Era meio Peter Rose, meio Percy Bysshe Shelley. Podia ser um rebelde explosivo, beligerante e desafiador, e ao mesmo tempo ingênuo como um garoto, humilde e cheio de compaixão. Estava sempre querendo se desculpar, compartilhar seus conhecimentos e aberto a aprender. Me lembro de vê-lo sentado ao lado da cama de Allen Ginsberg quando ele estava morrendo. “Allen está me ensinando a morrer”, dizia.
No começo do verão seus amigos se reuniram para lhe dizer adeus. Sentamos ao lado da sua cama na Horatio Street em silêncio. A noite cheia de estranhas correspondências. Uma filha que ele nunca tinha conhecido. Um mecenas de muito longe. Um jovem poeta aos seus pés. Numa tela sem som, Pull My Daisy, de Robert Frank, divulgado abertamente na TV pública – sem consciência de sua sincronia mística. Imagens dos “Papais”, jovens e loucos, preto e branco. Fotos de Allen afixadas na parede. O modesto quarto dominado pela poltrona de Gregory em toda sua glória surrada. Quantos sonhos pontuados pela fumaça dos cigarros. Ele estava morrendo. Todos dissemos adeus.
Mas Gregory, talvez pressentindo a devoção ao seu redor, tomou parte num verdadeiro milagre católico. Levantou-se. E foi reminiscências adentro o suficiente para ouvirmos sua voz, sua gargalhada, e algumas bem-vindas obscenidades. Pudemos escrever poemas e cantar para ele, assistir futebol e ouvi-lo recitar Blake. Ainda ficou aqui o suficiente para viajar até Minneapolis para encontrar sua filha, ser um rei entre crianças, ver outro outono, outro inverno e outro século. Allen o ensinou a morrer. Gregory nos lembrou de como viver e estimar a vida antes de nos deixar uma segunda vez.
No fim de seus dias, ainda sofria de um tormento de poeta jovem – o desejo de atingir a perfeição. E na morte, como na arte, vai atingir. A luz fresca derrama. Os garotos da rodovia o guiam. Mas antes de ascender a algum cartonado clarão sagrado, Gregory, sendo ele mesmo, suspende seu casaco, baixa suas calças e conforme expõe seus glúteos de poeta pela última vez, grita, “Ei, cara, beije minha margarida”. Ah Gregory, os anos e as pétalas voam.
Bem nos quis. Mal nos quis. Bem nos quis.


A DIFERENÇA ENTRE OS ZOOLÓGICOS

Fui para o Hotel Broog;
e foi lá que me imaginei cantando a Ave Maria
pra um bando de Duendes grisalhos de pele cor de madeira.
Acredito em gnomos, em pigmeus;
acredito em converter o bicho-papão,
trazer a Medusa para Kenneth;
pedir a Zeus um olho novo pra Polifemo;
e agradeci cada homem que já viveu,
agradeci a vida o mundo
pela quimera, a gárgula,
a esfinge, o grifo,
Rumpelstiltskin –
cantei a Ave  Maria
para o Heap, o Groot,
o mugwump, Thoth,
o centauro, Pan;
Reuni-os todos no meu quarto no Broog,
o lobisomem, o vampiro, o Frankenstein
todos os monstro imagináveis
e cantei e cantei a Ave Maria
O quarto tinha de se tornar insuportável!
Fui ao zoológico
e oh Deus obrigado o simples elefante.
 
DESTINO

Eles entregam os decretos de Deus
sem demora
E são isentos de apreensão
e detenção
E com seu Dons Divinos
Petaso, Caduceo e Talaria
rompem como raios de relâmpago
desimpedidos entre os tribunais
do espaço e do tempo

O Espírito-Mensageiro
no corpo humano
é assinalado firme
confiante, fecundo,
perfeita existência poética
ao longo de sua duração na vida

Não bate
ou toca a campanhia
ou telefona
Quando o Espírito-Mensageiro
vem até sua porta
mesmo fechada
ele vai entrar como uma parteira elétrica
e entregar a mensagem

Não há relatos
através das eras
de que um Espírito-Mensageiro
tenha alguma vez tropeçado na escuridão

A BAGUNÇA TODA... QUEM SABE

Subi seis lances de escada
até meu pequeno quarto mobiliado
abri a janela
e comecei a jogar fora
as tais coisas mais importantes na vida

Primeiro, a Verdade, ganindo como um dedo-duro:
“Não! Direi coisas terríveis de você!”
“Ah, é? Não tenho nada a esconder... FORA!”
Depois, Deus, assombrado, corado e choroso de espanto:
“Não é culpa minha! Não sou a causa de tudo isso!” “FORA!”
Depois o Amor, aliciando subornos: “Você não conhecerá a impotência!
As garotas da capa da Vogue, todas suas!”
Apertei sua bunda gorda e gritei:
“Seu destino é um desvalido!”
Peguei a Fé, a Esperança e a Caridade
as três juntas abraçadas:
“Você não vai sobreviver sem nós!”
“Estou pirando com vocês! Tchau!”

Depois a Beleza... Ah, a Beleza –
Tão logo a levei até a janela
disse: “Você eu amei mais na vida
... mas é uma assassina; a Beleza mata!”
Sem querer realmente atirá-la
desci correndo as escadas
chegando a tempo de apanhá-la
“Você me salvou!” sussurrou
Coloquei-a no chão e disse: “Anda.”

Subi de volta as escadas
procurei o dinheiro
não havia dinheiro pra jogar fora.
Só restava a Morte no quarto
escondida atrás da pia da cozinha:
“Não sou real!” gritou
“Não passo de um rumor espalhado pela vida...”
Atirei-a fora com a pia e tudo, sorrindo
e então notei que o Humor
era tudo que havia restado –
Tudo que pude fazer com o Humor foi dizer:
“A janela fora com a janela!”

poemas: Gregory Corso
traduções: Márcio Simões
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Nota: esta introdução é do livro Antologia poética de Gregory Corso, tradução de Márcio X. Simões, da Coleção O Começo da Busca, coordenada por Floriano Martins, que se encontra em revisão e deverá sair nos próximos meses.


Fagundes Varella



A poesia decadente de

Fagundes Varella*



Luís Nicolau Fagundes Varella, nascido na fazenda Santa Rita, no município de Rio Claro, Rio de Janeiro, em 17 de agosto de 1841, é o mais conhecido de nossos poetas malditos. Considerado pela crítica como um “romântico”, é também, e antes de tudo, um decadente, se não no sentido do movimento que deu origem e se mesclou com o simbolismo, ao menos em um sentido primordial do termo: aquele que decai. Apesar de ter tido um grande reconhecimento em vida, foi um desdichado, um daqueles seres cujo destino, mui atroz, torturou-o por trinta e três anos; o que não o impediu de deixar o legado de uma vasta e diversificada produção poética, ainda hoje difícil de se “classificar”.
Poeta errante por excelência, tanto na vida quanto na obra, Varella arrastou-se pelos empoeirados caminhos do Rio de Janeiro do século XIX, até seu corpo se estiolar nas pedras e espinhos do mundo e nas águas ardentes da vida: era alcoólatra. Mas, como escrevera Mário Donato, “não têm razão os críticos que o julgam um ‘alcoólatra poeta’, quando o contrário é que é verdade”[1]. Conta-se que quando seu primeiro filho nasceu, foi preciso pôr um anúncio no jornal para que ele tivesse conhecimento disso e voltasse para casa: estava numa de suas crises de andarilho. Pois andava muito, e a esmo, pelos caminhos mais ermos, errando de cidade em cidade, de fazenda em fazenda, bebendo e compondo.
Tem razão a historiadora literária Luciana Stegagno-Picchio quando diz que “a biografia desse hippie ante litteram é indispensável para o entendimento de sua obra poética”[2], por isso aqui me estendo um pouco sobre sua vida, a fim de poder iluminar parte de sua obra.
Aos dez anos de idade Varella muda-se com a família para Goiás, quando então seu pai fora nomeado juiz de direito de Catalão[3]. Quatro anos mais tarde muda-se para Angra dos Reis; depois para Petrópolis; depois para Niterói. Aos dezenove anos, em 1860, vai para São Paulo, onde passa a ser conhecido e reconhecido no meio acadêmico, não pelos estudos, mas pelos poemas publicados no Correio Paulistano, sobretudo alguns dedicados a uma prostituta pela qual se apaixonara, Ritinha Sorocabana, entre os quais, o poema Vem!..., inserido, com o título A uma mulher, nos Cantos Meridionaes de 1869, e que terminam com os seguintes versos:

“Vem, que me importa o murmurar do vulgo?
O dubio riso? o escarnecer das gentes?
Si agoa precisas que teus erros lavem,
Oh! de meus olhos verterei torrentes!”[4]

Essa paixão não durou muito, mas lhe rendeu alguns versos e certo escândalo. Por essa época “estudantil”, Varella bebia e festejava com freqüência, faltava às aulas e escrevia poemas e contos que ia publicando no Correio Paulistano e em revistas acadêmicas. “Só que de vez em quando, inexplicavelmente, desaparecia da circulação: anda a peregrinar, a pé, sem companhia, pelas vilas, campinas e bairros retirados...”[5].
Em 1861 publica, numa plaqueta de 30 páginas, Nocturnas, onde se encontram alguns de seus melhores versos, como Archetypo e A enchente, e onde também já se evidencia sua “errância” poética, tanto formal quanto temática.
Ainda nesse ano conhece Alice Guilhermina Luande, filha de um dono de circo e artista do mesmo, com quem se casa em maio do ano seguinte, 1862, e tem um filho, Emiliano (o anunciado no jornal). Por essa época Varella já gozava de “merecida fama como grande poeta acadêmico, farrista e relapso”[6], o que levou seu casamento ao fracasso: “andam ambos morando pelas casas dos parentes ou em residência cujos aluguéis nunca são pagos, o poeta continua bebendo e sumindo da mulher, perseguido pelos credores e pela sua eterna inquietação”. E é durante um desses “sumiços” que nasce seu filho, “numa ‘república’ de estudantes”[7]. Essa criança ajusta o poeta na vida social, mas apenas temporariamente, pois Emiliano morre aos três meses de idade, levando Varella novamente ao álcool e às ruas: “esteve viajando sozinho e a pé, em Porto Feliz, Sorocaba, Tietê e Itu”[8]. É desse período o famoso poema Cantico do Calvario, cujo tema é a morte do filho, incluído em Cantos e phantasias de 1865. Ainda nesse mesmo ano deixa a mulher na casa de seu pai e parte para Recife para continuar o curso de direito, iniciado em São Paulo, mas juntamente com o curso continua sua vida de boêmio. A notícia da morte de Alice o faz retornar à casa do pai e, em seguida, já em 1866, retorna a São Paulo para dar continuidade aos estudos, mas “aparece pouco, pelo menos na Faculdade”[9], e quando aparece está envolvido em brigas.
Em fins de 66 ou início de 67, desaparece de São Paulo e, supostamente, volta para Rio Claro, para a fazenda do seu pai, casando-se pela segunda vez. Na pena de Sílvio Romero: “de 1867 em diante torna-se obscura a biografia do ilustre fluminense. Sei apenas que iniciou então vida erradia pelo Rio, Niterói, Rio Claro, Mangaratiba, Angra dos Reis e outras cidades da província do Rio de Janeiro”[10]. Fato é, no entanto, que contraiu novo casamento e teve duas filhas que lhe sobreviveram. Em 1869 publica ainda Cantos do ermo e da cidade, além do já mencionado Cantos Meridionaes.
Faleceu em 18 de fevereiro de 1875, aos 33 anos, de embolia cerebral, deixando dois livros inéditos: o longo Anchieta ou o Evangelho nas selvas e Diario de Lazaro, ambos não bem vistos pela crítica. É que desde 1870 Varella já perdia suas forças, e tinha ciência disso: “Machina de escrever e fazer versos,/ Já não sei mais cantar,/ O segredo perdi das melodias,/ Agora é só rimar!”, escreve ele em Canção[11], de 1870. Depois, “de 1873 em diante a sua queda é brusca e completa”[12], e Anchieta ou o Evangelho nas selvas representa o seu último suspiro poético, um longo e fastidioso poema religioso.

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Autor de mais de uma centena de poemas, de ampla temática e, sobretudo, de variadas formas, Fagundes Varella é, dentre os poetas do período romântico brasileiro, aquele que mais sinceramente cantou sua própria dor: a dor de existir. Seu desconforto errante de andarilho e alcoólatra está presente em muitos de seus poemas. Poemas que lhe conferem um “ar” decadente, antes mesmo do decadentismo, e que por seu tom confessional ultrapassa o romantismo. Isso porque ele era, singularmente, um poeta de poucas mentiras. Seus reclames líricos são quase sempre verdadeiros, basta compreender um pouco sua biografia para se dar conta disso. Daí que sua vida irregular produziu uma obra irregular. Reúne num mesmo livro, não apenas várias formas, como vários temas: canta a dor da perda do filho, canta louvores às selvas e à solidão, canta louvores ao vinho e à embriaguez, canta os ermos rincões do campo e a cidade, tem ardores patrióticos, cantos sertanejos, ímpetos de exacerbado romantismo suicida. Em suma, canta tudo o que lhe passa pelo cérebro, mesmo com erros de rima e métrica.
Conseguiu com tudo isso deixar-se estar como um incômodo para a crítica. Foi muito mal visto por José Veríssimo, para quem é “poeta muito descuidado do seu estro e de sua arte, todo entregue à pura inspiração”[13]; foi elogiado por Antonio Candido, apesar de que, “a impressão deixada por ele, é, com efeito, de que nada fez senão beber, poetar, vaguear e desvairar-se”[14]; foi mal compreendido por Massaud Moisés, para quem “é uma espécie de súmula de nossa poesia romântica”[15] mas que o viu, acertadamente, como um “inadaptado” que “reedita na Paulicéia e algures o cisma baudelairiano”, cuja poesia “irrompe, como poucas no tempo, do liame entre Vida e Arte”[16]; foi tomado pelo preconceituoso Alfredo Bosi como “o epígono por excelência, o maior dentre os menores poetas saídos das Arcadas paulistas”[17], um “eterno adolescente”[18]; e considerado por Sílvio Romero como um “agitado”[19], cuja obra, “aparentemente pessoal, é uma das mais impessoais de nossa literatura”[20], e que recomenda para as “novas gerações”, pois, “não pode haver mais inteligente e sincero companheiro. Lede-o, lede-o”[21].
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Eu o li. E penso que de algum modo a sua obra reproduz muito bem a sua vida, entre o campo e a cidade, entre as prostitutas e a família, entre a vida acadêmica e a sarjeta, entre um sentimento religioso e o devaneio pagão de todo poeta; incompreensível para si mesmo, buscando sempre um lugar que lhe parecia não existir: “O exilado está só por toda a parte!”[22]. Certamente foi, como diz Romero, “uma natureza múltipla, variada, excessivamente excitável, atormentada por estímulos diversos”[23], mas não uma “súmula” do romantismo, ou que “lido após aqueles poetas [românticos], deixa-nos a impressão do já lido” [24], como dirá ainda José Veríssimo. Não foi Varella um mero artífice do verso, ao menos não até 1870, quando então irá se considerar uma “Machina de escrever”.
O vago desconforto de sua alma, sua inquietação de poeta maldito, de atormentado com o existir, transparece, por exemplo, na composição Horas malditas, da segunda parte do livro Cantos e phantasias:

“Ha umas horas na noite,
Horas sem nome e sem luz,
Horas de febre e agonia...
Como as horas de Maria
Debruçada aos pés da cruz.
(...)
N’essas horas tumulares
Tudo é frio e desolado!...
O pensador vacillante
Julga ver a cada instante
Livido espectro a seu lado.
(...)
Oh! essas horas tremendas
Tenho-as sentido de mais!
E os males que me causaram
Os traços que me deixaram
Não se apagarão jámais!”

Essa composição, representativa do desconforto existencial de Varella, é pouco freqüente nos poetas românticos anteriores a ele. Esse sentimento, que se diria de um “depressivo” ou mesmo de um esquizofrênico, é recorrente em sua obra. Como bem observa Edgard Cavalheiro, “predomina na poesia vareliana o lírico intimista, atormentado com os seus próprios problemas”[25]. Em um outro poema, intitulado Soneto, transparece um desgosto cósmico, quando descreve a beleza de um amanhecer campestre, conclui angustiadamente: “Porém minh’alma triste e sem um sonho/ Repete olhando o prado, o rio, a espuma:/ - Oh! mundo encantador, tu és medonho!”[26].
Se pensarmos em seu espírito inquieto, andarilho, alcoolizado, parecem ser muito pessoais os versos de Sombras! em que diz: “Andar e sempre andar! O globo inteiro/ Pendido atravessar como Caïm!/ Não achar um repouso, um termo, um fim/ Á dôr que róe, lacera e não descança!”[27], ou ainda, em versos de Desengano, depois de expressar desprezo pela fama, “Que me importa um nome impresso/ No templo da humanidade,/ (...) Se para escrever os cantos/ Que a multidão admira/ É mister quebrar as pennas/ De minh’alma que suspira?/ (...) Se nos desertos da vida,/ Romeiro da maldição,/ Tenho de andar sem descanço/ Como o Hebrêo da tradição?...”[28].
Que tipo de exílio sofria Varella? Que inquietação o fazia caminhar sem rumo, como um andarilho? Não saberia responder, talvez seja impossível. Mas creio que aquilo que o incomodava estava presente em alguns de seus poemas, justamente naqueles que Sílvio Romero diz que o definem como poeta, naqueles “em que aparecem essas incertezas, essas flutuações, essas névoas, esses claros e escuros, essas vagas aspirações, esses sonhos róseos e dúbios, esses matizes impalpáveis, essas ondulações quiméricas de um espírito inconsistente adormecido numa espécie de embriaguez”[29], e que ele chama de lirismo báquico.
Quando escreveu as linhas acima, Romero devia estar pensando em poemas como Nevoas, do qual há duas versões, ou, entre outros, Eu amo a noite, Queixas do poeta e Scismas á noite, ou no longo e belo Acusmata. Poemas com ares flutuantes, etéreos, dir-se-ia versos de um simbolista, como em Nevoas: “Assim eu fallava, nos amplos desertos,/ Seguindo os incertos lampejos da luz,/ Na hora em que as nevoas se estendem nos ares/ E choram nos mares as ondas azues.”[30]. Nesse mesmo tom musical e decadente, Varella canta também seu amor à noite: “Eu amo a noite quando deixa os montes,/ Bella, mas bella de um horror sublime”[31]; ou, em Sextilhas, com versos que lembram Augusto dos Anjos e Alphonsus de Guimaraens, dos quais é legítimo precursor[32]:

“Amo os nocturnos lampyrios
Que gyrão, errantes cirios,
Sobre o chão dos cemiterios,
E ao clarão de tredas luzes
Fazem destacar as cruzes
De seu fundo de mysterios.”

É importante sublinhar os adjetivos usados por Romero: incertezas, flutuações, névoas, claros e escuros, vagas aspirações, sonhos róseos e dúbios, matizes impalpáveis e ondulações quiméricas. Penso que são adjetivos que caberiam bem a muitos poetas simbolistas brasileiros.
Temos assim em Fagundes Varella não apenas uma série de poemas confessionais, que lhe deixam transparecer uma forte angústia existencial, como também todos os elementos de um poeta decadente em plena década de 1860, um “agitado” que escreveu poemas anti-escravocratas, liberais, sertanejos, bucólicos, urbanos e melódicas canções, um romântico que expressou seu amor às florestas, às verdes campinas, assim como à embriaguez e aos prazeres citadinos. Um poeta alheio aos mestres-escolas da poesia, para os quais também não deixara de cantar: “Lançai vossos preceitos e tratados/ Ás chammas vivas de voraz incendio.../ Alma que sente, que se inspira e canta/ Não conhece compendio.”[33].
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Se para Goethe, Hoffmann era um “demente”, e para os críticos americanos Allan Poe apenas um “vagabundo”, “um porco de gênio”, não há o que se espantar que críticos como Veríssimo e Bosi, fiéis da opus dei literária, vissem no autor fluminense apenas um poeta “descuidado” e “menor”. Até que eles foram complacentes.
O leitor agora que os julgue...
Camilo Prado


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Este prefácio é do livro Eu amo a noite e outros poemas de Fagundes Varella. Com ilustrações e capa de Aline Daka.


Se desejar adquirir o livro: Edições Nephelibata. 



* Uma primeira versão deste texto foi publicada com o título: Fagundes Varella: um Bardo boêmio, in Fazendo Gênero 8 – Corpo, violência e poder. – ST 63 – A escrita do eu: ficções e confissões da dor II [cd-room] – Florianópolis: Editora Mulheres, 2008.
[1] DONATO, Mário, O Anjo e o Demônio em Fagundes Varella, in VARELA, Obras completas. 2a.edição. São Paulo: Edições Cultura, 1945. p. XXI.
[2] PICCHIO, Luciana Stegagno-, História da literatura brasileira. Trad. de Pérola de Carvalho e Alice Kyoko. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997. p. 212.
[3] Sigo aqui as informações biográficas dadas por Mário DONATO, Opus cit., p. XIV.
[4] VARELLA, Fagundes, Obras completas. 3 volumes. [Edição organizada e revista, e precedida de uma noticia biographica por Visconti Coaracy e de um estudo critico pelo Dr. Franklin Tavora]. Rio de Janeiro/ Paris: H. Garnier, s/d. vol. 2, p. 150 (Cantos Meridionaes).
[5] DONATO, Mário, Opus cit., p. XV.
[6] Idem.
[7] Idem, p. XVI.
[8] Idem.
[9] Idem, p. XVII.
[10] ROMERO, Sílvio, História da literatura brasileira, tomo 2. Rio de Janeiro: Imago Editora/ Aracaju: Universidade Federal de Sergipe, 2001. p. 995.
[11] VARELLA, Fagundes, Opus cit., vol. 1, p. 277 (Avulsas).
[12] DONATO, Mário, Opus cit., p. XVIII.
[13] VERÍSSIMO, José, História da literatura brasileira. 4a.edição. Vol. 3. Brasília: Editora da UnB, 1963. p. 247.
[14] CANDIDO, Antonio, Formação da literatura brasileira. 5a.edição. Vol. 2. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia/ São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. p. 257.
[15] MOISÉS, Massaud, História da literatura brasileira. Vol. II. São Paulo: Cultrix, 1985. p. 153.
[16] Idem, p. 169.
[17] BOSI, Alfredo, História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1978. p. 129.
[18] Idem, p. 131.
[19] ROMERO, Sílvio, Opus cit., p. 996.
[20] Idem, p. 995.
[21] Idem, p. 1002.
[22] VARELLA, Fagundes, Opus cit., vol. 1, p. 130, (Vozes da America).
[23] ROMERO, Sílvio, Opus cit., p. 996.
[24] VERÍSSIMO, José, Opus cit., p. 247.
[25] CAVALHEIRO, Edgard, [Apresentação] in Fagundes Varela, Poesia. Rio de Janeiro: Agir, 1957. p. 11.
[26] VARELLA, Fagundes, Opus cit., vol. 1, p. 103, (Vozes da America).
[27] Idem, vol. 2, p. 47, (Vozes da America).
[28] Idem, vol. 2, p. 60/61, (Cantos e phantasias).
[29] ROMERO, Sílvio, Opus cit., p. 996.
[30] VARELLA, Fagundes, Opus cit., vol. 2, p. 115, (Cantos e phantasias).
[31] Idem, vol. 2, p. 216, (Cantos do ermo e da cidade).
[32] A aproximação estética com Augusto dos Anjos também é notável no poema Sobre um tumulo, presente neste volume. Além de Augusto dos Anjos e Alphonsus de Guimaraens, as imagens sangrentas de névoas de Fagundes Varella também refletiram em outro decadente digno de nota, o baiano Francisco Mangabeira.
[33] Idem, vol. 2, p. 170, (Cantos meridionaes - Introdução do poema Mimosa).